CAMINHO DE FERRO DO SUL E SUESTE
«Ainda que tentássemos, ser-nos-hia impossível fazer a historia d’este caminho de ferro. Para se poder descrever minuciosamente as differentes phases que elle tem experimentado, para bem se poder apreciar as altas e importantíssimas discussões que a seu respeito se teem suscitado, seria necessário um estudo profundo e demorado, que certamente exorbitaria a esphera dos nossos conhecimentos; e quem a isso se propozesse teria de escrever longos volumes.
[…] limitar-nos-hemos portanto a tocar simplesmente alguns pontos mais capitaes ou que mais intimamente se relacionem com os interesses d’este villa.
É ao grande estadista Joaquim António d’Aguiar, que tanto se interessava pelo bem estar d’esta terra, que o Barreiro deve, inquestionavelmente, o extraordinário beneficio de ser a estação “terminus” do caminho de ferro do sul e sueste.
Por carta da lei de 7 de Agosto de 1854, approvando um contracto feito pelo governo em 24 de Julho d’esse mesmo anno, foi determinada a construcção d’uma linha férrea, ao sul do Tejo, partindo de Aldegallega a Vendas Novas.
Em resultado, porém, de difficuldades que surgiram, e especialmente por influencia do ministro que por tanto tempo patrocinou o Barreiro, appareceu, em 26 d’esse mesmo mez e anno, outro decreto approvando um contracto addicional, no qual se determinava que a estação “terminus” d’esta linha fosse no Barreiro.
Assim sucedeu, e no dia 1 de Fevereiro de 1861, foi este caminho aberto ao publico, tendo apenas 19 kilometros em exploração, 56 na linha principal e 13 no ramal de Setúbal, havendo a companhia constructora chamada “brazileira”, recebido do governo, a título de subvenção, a importância de 551:893$676 réis, além de madeiras no valor de 359:480$454 réis.
Pela lei de 29 de Maio de 1860, foi approvado o contracto feito pelo governo, em 3 de Janeiro d’esse anno, para o prolongamento do caminho de ferro de Vendas Novas a Évora e Beja, com John Sutherland Valentine, como representante de uma companhia ingleza, que tomou o nome de “Companhia do caminho de ferro do sueste de Portugal”, recebendo esta empreza a quantia de 1.970:688$000 réis.
Com esta mesma companhia fez o governo outros differentes contractos; […]
Tendo, porém, esta companhia faltado a todos ou pelo menos á grande maioria das clausulas dos seus contractos, foram estes rescindidos por decreto de 23 de Maio de 1866 e, depois de renhida lucta, tomou o governo, em 12 de Março de 1869, posse de tudo quanto era inherente não só ao caminho de ferro como a todas as linhas que estavam em construção.
[…]
A primitiva estação principal d’este caminho foi construída a cerca d’um kilometro ao sul da villa, e ainda se conserva; é um magestoso edifício que mede 68 metros de largura por 95 de fundo, incluindo o grande terraço que lhe fica na frente e para o qual se sobe por duas amplas escadas lateraes de cantaria; este edifício ocupa uma área de 6.460 metros quadrados, tendo só a gare 32 metros de largo por 67 de comprido.
O local escolhido para a sua edificação foi péssimo; primeiramente, os passageiros que de Lisboa se dirigiam para este caminho, desembarcavam na ponta do Mexilhoeiro e tinham de percorrer a pé um extenso areial de cerca de dois kilometros, antes de chegarem ao local onde deviam metter-se no comboio; mais tarde começou o vapor a ir lançar os passageiros mesmo defronte da estação, mas ainda assim o incommodo não era menor, pois que passavam do vapor para pequenos barcos que os vinham lançar em terra, tendo ainda de percorrer, a pé, uma certa distancia até á estação.
Ulteriormente procuraram remover estes inconvenientes construindo uma extensa ponte de madeira, com trezentos e quarenta metros de comprido, que unia o caes com o ponto onde o vapor podia chegar, a qual foi demolida quando se terminou o grande aterro ultimamente construído, em cuja extremidade se edificou a nova estação.
D’esta ponte, desapparecida já há uns bons seis annos, ainda hoje nós, os barreirenses, possuímos uma onerosa recordação – o celebre imposto de 40 réis (que ainda hoje se paga) lançado sobre o preço de cada bilhete vendido no Barreiro ou para o Barreiro, com o fim de occorrer ás despezas da conservação ou mesmo da sua construção!
É difficil explicar a existência d’este imposto, na actualidade depois de cessar a causa que o motivou.»
[…]
J. A. Pimenta - 1886